CMB 2026 chega com tudo com encontro de artistas e fãs
- 14 de ago.
- 7 min de leitura
Comic Market Brasil 2026 aproxima mangá brasileiro do Japão e recebe Hideki Tsuji para encontro com artistas e fãs
A segunda edição do Comic Market Brasil chega em 2026 com uma proposta que vai além de reunir fãs de quadrinhos, mangás e cultura pop. Realizado na FAPCOM, na Vila Mariana, em São Paulo, o evento busca aproximar artistas independentes do mercado profissional e, neste ano, ganha um componente internacional especialmente importante: a presença do mangaká japonês Hideki Tsuji.
Conhecido por seu trabalho em Souten no Ken REGENESIS, Tsuji participou de uma coletiva de imprensa antes do evento e conversou com jornalistas sobre criação, influências, inteligência artificial, mercado editorial, tokusatsu e as possibilidades de aproximação entre artistas brasileiros e japoneses.
Mais do que uma participação internacional, a visita também acabou funcionando como uma via de mão dupla. Enquanto o Comic Market Brasil apresenta ao público brasileiro um artista japonês com uma carreira consolidada, Tsuji teve a oportunidade de conhecer de perto uma produção brasileira que, segundo ele próprio, ainda conhecia pouco.
"Um evento pensado para transformar criação em mercado
Na abertura da coletiva, Thiago Spyked, diretor e sócio do Comic Market Brasil, explicou que a proposta nasceu de uma constatação feita durante sua trajetória como desenhista, ilustrador e editor: o Brasil possui uma grande quantidade de quadrinhos independentes, mas boa parte dessa produção permanece desconhecida porque os artistas não conseguem estabelecer contato com outros setores do mercado.
A solução encontrada pelo evento foi reunir três áreas diferentes em um mesmo espaço: educação, negócios e produção artística.
O Comic Learning concentra aulas e atividades educacionais. O Comic Business aproxima artistas de empresas que trabalham com impressão, animação, 3D, registro de marcas, aplicativos e outras áreas relacionadas à produção criativa. Já a área de artistas reúne autores, editoras e projetos independentes.
A primeira edição, realizada em 2025, mostrou que havia público para essa proposta. Segundo os organizadores, o evento alcançou cerca de 1 milhão de visualizações no Instagram, número que posteriormente passou de 1,2 milhão. O perfil também cresceu de aproximadamente 7 mil seguidores para quase 12 mil.
Um dos resultados mais comemorados, entretanto, não foi numérico. Durante quase dois meses depois do evento, criadores de conteúdo continuaram produzindo vídeos, fotos e publicações espontaneamente, sem solicitação da organização. Para os responsáveis pelo Comic Market, isso mostrou que o evento havia conseguido criar uma sensação de comunidade e pertencimento.
"Comic Market cresce em sua segunda edição
Em 2026, o evento ocupa quatro andares da FAPCOM, um a mais que na primeira edição.
A área destinada aos artistas terá 70 mesas, todas preenchidas. De acordo com Thiago, esse número representa praticamente o limite físico do espaço disponível.
A programação também ganhou novas atrações. Uma delas é a Arena Portfólio Review, onde artistas poderão levar seus trabalhos para receber avaliações de profissionais. Outra é o Comic Pit, iniciativa que coloca projetos autorais diante de empresários em uma dinâmica inspirada em programas como Shark Tank.
A proposta é ensinar não apenas a criar uma obra, mas também a apresentá-la profissionalmente para quem pode investir nela.
O público também poderá participar da Quest do CMB, uma espécie de gincana espalhada pelo evento. Os visitantes receberão mapas e deverão passar por diferentes ativações para coletar carimbos e, ao completar o percurso, ganhar um brinde exclusivo.
A programação inclui ainda podcast ao vivo, exposição e apresentação de projetos de animação, espaço para board games e card games, loja oficial, degustação de café, desafios promovidos por patrocinadores e diversos sorteios.
"Eli Barbosa será homenageado
Outro destaque da edição de 2026 é a homenagem a Eli Barbosa.
Henrique, sócio do evento e curador da exposição, explicou durante a coletiva que uma das preocupações do Comic Market Brasil é recuperar a memória de artistas brasileiros que tiveram grande importância para a indústria, mas que muitas vezes não recebem hoje o mesmo reconhecimento.
Eli Barbosa teve destaque nas décadas de 1970, 1980 e 1990 e foi apresentado durante a coletiva como um dos pioneiros brasileiros da animação, além de ter trabalhado com personagens, licenciamento e merchandising.
A homenagem contará com uma exposição e também com a oitava edição do Prêmio Eli Barbosa, criado para reconhecer profissionais que trabalharam com quadrinhos em décadas nas quais desenhistas, roteiristas e outros integrantes das equipes frequentemente sequer recebiam seus devidos créditos nas publicações.
"Hideki Tsuji: “continuar sonhando”
Foi dentro desse ambiente dedicado à produção autoral que Hideki Tsuji encontrou uma das principais oportunidades de sua visita ao Brasil: conversar diretamente com novos artistas.
Questionado sobre o conselho que daria a quem deseja começar uma carreira produzindo mangá, Tsuji foi direto. Para ele, é necessário continuar sonhando, não desistir e continuar desenhando.
A resposta pode parecer simples, mas ganha outro peso quando vem de um profissional que já atravessou diferentes etapas da indústria japonesa.
Durante a coletiva, Tsuji também demonstrou interesse em conhecer não apenas os trabalhos dos brasileiros, mas as motivações por trás deles. Depois de visitar a loja de Thiago e entrar em contato com publicações nacionais, o artista afirmou estar curioso para conversar pessoalmente com os autores e entender o que os leva a criar suas histórias.
"A liberdade dos artistas brasileiros chamou sua atenção
Um dos momentos mais interessantes da coletiva aconteceu quando Tsuji foi questionado sobre as diferenças que percebeu entre o Comic Market Brasil e eventos semelhantes no Japão.
Ele fez a ressalva de que aquela ainda era sua primeira experiência no evento brasileiro, mas destacou a proximidade entre artistas, fãs, editores e outros profissionais.
Mais do que isso, chamou sua atenção a liberdade criativa que encontrou nos quadrinhos brasileiros.
Segundo Tsuji, muitos autores brasileiros parecem ter maior liberdade para produzir exatamente aquilo que desejam. No Japão, por outro lado, o processo editorial costuma envolver diferentes etapas e a participação de editores, o que pode fazer com que a obra final se afaste da ideia originalmente concebida pelo autor.
Para ele, essa liberdade encontrada no Brasil é uma das características mais fortes da produção nacional.
A impressão é especialmente curiosa porque Tsuji chegou ao país vindo justamente de uma indústria conhecida por sua estrutura editorial altamente profissionalizada. Em vez de simplesmente apresentar o modelo japonês como referência, ele acabou reconhecendo uma qualidade específica no modo brasileiro de produzir.
"IA pode ser ferramenta, mas não substitui o autor
A inteligência artificial generativa também apareceu entre as perguntas feitas pelos jornalistas.
Tsuji não apresentou a tecnologia como uma ameaça inevitável à produção artística. Para ele, a IA pode ser utilizada como uma ferramenta de apoio na criação de mangás.
Existe, porém, um limite importante: na visão do artista, uma inteligência artificial não deveria ser responsável por criar uma obra inteira por conta própria.
A criatividade do autor continua sendo o elemento central.
Sua posição coloca a tecnologia como uma ferramenta dentro do processo criativo, e não como substituta da pessoa que concebe e desenvolve a obra.
"Akira, Dōmu e as influências de Tsuji
Entre as referências artísticas citadas por Tsuji está Katsuhiro Otomo, especialmente por meio de Akira e Dōmu.
O artista explicou que se inspira em elementos que vão muito além dos personagens. Texturas, sujeira nas ruas, pedras, iluminação, reflexos nos olhos e a maneira como cenas de ação são representadas também fazem parte das referências absorvidas por seu trabalho.
A iluminação da motocicleta de Akira, por exemplo, foi citada como uma referência visual importante.
É justamente nesse tipo de detalhe que aparece uma característica interessante da formação artística de Tsuji: suas influências não estão apenas na narrativa ou no gênero, mas também na maneira como um ambiente pode ser desenhado e percebido.
"O tokusatsu também está presente
Outra pergunta levou Tsuji a falar sobre uma paixão que o acompanha desde a infância: o tokusatsu.
O artista contou que acompanha produções do gênero desde criança e continua assistindo atualmente. Entre os títulos mencionados estão Jiraiya, Dynaman e V-Cross, além de outras produções.
Tsuji também reconheceu que o gênero acabou influenciando alguns de seus personagens. Ele citou ainda Tiger Mask como uma referência que chegou a influenciar a criação de um personagem.
A relação com o tokusatsu ajuda a explicar uma parte do imaginário visual de um artista que cresceu cercado por heróis, ação e personagens marcantes.
"Souten no Ken e o desafio de atualizar personagens conhecidos
Outro assunto importante foi o trabalho de Tsuji em Souten no Ken REGENESIS.
Ao falar sobre a tarefa de trabalhar com personagens que já possuem uma história anterior, ele explicou que é necessário manter a essência do personagem, mas também encontrar maneiras de aproximá-lo do público contemporâneo.
Entre as mudanças estão elementos como a maneira de falar e determinados aspectos de sua caracterização.
A ideia, portanto, não é simplesmente reproduzir uma fórmula antiga, mas encontrar uma maneira de fazer com que personagens conhecidos continuem funcionando para uma nova geração.
"Papel e digital convivem
Tsuji também comentou a transformação dos hábitos de leitura.
Para ele, a expansão dos smartphones e da leitura digital tornou o acesso aos mangás muito mais simples, especialmente para públicos mais jovens. Ao mesmo tempo, uma parcela dos leitores mais antigos continua preferindo o formato físico.
Souten no Ken REGENESIS, por possuir uma relação com uma franquia que atravessa diferentes gerações, acaba refletindo justamente essa divisão.
Há leitores digitais, mas também existe um público que continua valorizando o papel.
"Uma possível ponte entre Brasil e Japão
Talvez o ponto mais promissor da visita de Tsuji seja a possibilidade de novas colaborações.
Questionado sobre trabalhar futuramente com um artista brasileiro, o mangaká demonstrou interesse. Para ele, seria um novo desafio e uma oportunidade de chegar a leitores de outro país.
Naturalmente, qualquer projeto dependeria de propostas concretas, mas a disposição existe.
E a ideia combina diretamente com a proposta do Comic Market Brasil: criar situações em que artistas de diferentes mercados possam se conhecer e, eventualmente, trabalhar juntos.
Tsuji também afirmou esperar que sua presença no Brasil possa servir como estímulo para que outros artistas japoneses conheçam o país.
"Um encontro que pode ser maior do que um evento
Ao final da coletiva, ficou claro que a expectativa não está apenas no público brasileiro conhecer Hideki Tsuji.
O próprio artista demonstrou vontade de conhecer os quadrinistas brasileiros, entender suas histórias e descobrir o que existe por trás de uma produção que, até pouco tempo atrás, ele conhecia apenas superficialmente.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior força da edição 2026 do Comic Market Brasil.
O evento não pretende apenas trazer o Japão para o Brasil. A proposta é criar uma situação na qual o Japão também possa descobrir o que está sendo produzido aqui.
Entre artistas independentes procurando espaço, empresas buscando novos projetos, uma geração interessada em aprender e um mangaká japonês disposto a conhecer uma cena criativa diferente da sua, o Comic Market Brasil tenta ocupar um espaço que ainda é pouco explorado no país: o de uma verdadeira ponte entre **criação, mercado e intercâmbio cultural**.
A segunda edição acontece na FAPCOM, em São Paulo, com programação ao longo do fim de semana e a participação de Hideki Tsuji como uma das principais atrações internacionais.




Comentários